Idoso troca o dia pela noite: é insônia ou alteração do horário do sono?
Entenda por que dormir tarde nem sempre significa dormir pouco e o que familiares e cuidadores precisam observar.
“Meu pai não dorme à noite. Fica acordado até as três da manhã e só levanta ao meio-dia!”
Essa é uma queixa comum entre familiares e cuidadores de pessoas idosas. Mas será que estamos diante de um problema de insônia ou de uma rotina de sono em horários diferentes?
Antes de concluir que a pessoa idosa está dormindo mal, precisamos observar três aspectos importantes: quantas horas ela dorme, em quais horários e qual é a qualidade desse sono.
A pessoa idosa realmente precisa dormir menos?
Existe uma crença de que, com o envelhecimento, as pessoas passam a precisar de poucas horas de sono.
Entretanto, pesquisas mostram que pessoas idosas geralmente continuam necessitando de aproximadamente 7 a 9 horas de sono por noite, embora essa necessidade possa variar individualmente.
O que muda com o envelhecimento não é necessariamente a quantidade de sono necessária, mas algumas características do descanso.
O sono pode se tornar mais leve, os despertares noturnos podem ser mais frequentes e os horários de dormir e acordar podem sofrer alterações.
Por isso, envelhecer não significa deixar de precisar de uma boa noite de sono.
Dormir às três da manhã e acordar ao meio-dia é insônia?
Não necessariamente.
Imagine uma pessoa idosa que adormece às três horas da manhã e acorda ao meio-dia.
Entre esses dois horários existem nove horas. Se ela realmente dormiu durante a maior parte desse período, não podemos afirmar que está dormindo pouco apenas porque adormeceu de madrugada.
É importante diferenciar o tempo que a pessoa permanece na cama do tempo em que realmente está dormindo.
Também precisamos considerar como ela se sente ao acordar, se apresenta sonolência durante o dia e se os horários de sono prejudicam suas atividades.
Dormir em um horário diferente do habitual não significa, por si só, ter insônia.
O que é o relógio biológico?
Nosso organismo possui um sistema de regulação conhecido como ritmo circadiano, popularmente chamado de relógio biológico.
Ele ajuda a organizar os períodos de sono e vigília ao longo de aproximadamente 24 horas.
Esse funcionamento sofre influência de diferentes fatores, especialmente da exposição à luz, da rotina de atividades e dos horários de dormir e acordar.
Com o envelhecimento, podem ocorrer mudanças nesse sistema. Em muitas pessoas idosas, existe uma tendência a sentir sono mais cedo e despertar mais cedo.
Entretanto, algumas pessoas apresentam horários de sono atrasados ou irregulares, especialmente quando existem mudanças importantes na rotina, pouca exposição à luz natural ou determinadas condições de saúde.
Quando o horário de dormir e acordar está desajustado em relação às necessidades da pessoa, pode haver uma alteração do ritmo de sono e vigília.
Isso não significa que todos esses casos representem uma doença.

A rotina pode influenciar o sono da pessoa idosa?
Sim. E esse é um ponto importante para familiares e cuidadores.
Uma pessoa idosa que passa grande parte do dia sentada, recebe pouca luz natural, realiza poucas atividades e dorme durante longos períodos à tarde pode apresentar dificuldades para adormecer no horário desejado.
Em algumas situações, organizar melhor a rotina contribui para melhorar a regularidade do sono.
Algumas medidas que podem ajudar incluem:
Manter horários relativamente regulares para acordar e dormir.
Favorecer a exposição à luz natural durante o dia, respeitando as condições de saúde.
Estimular atividades físicas e sociais compatíveis com a capacidade da pessoa.
Observar a duração e o horário dos cochilos.
Evitar cafeína próximo ao horário de dormir.
Manter o quarto confortável, silencioso e com iluminação adequada.
Reduzir estímulos intensos e o uso de telas antes de dormir.
Essas medidas fazem parte dos cuidados conhecidos como higiene do sono.
Entretanto, não se deve obrigar a pessoa idosa a permanecer acordada ou modificar bruscamente seus horários, especialmente quando existem doenças ou alterações cognitivas.
O objetivo é promover um descanso adequado, e não simplesmente fazer com que todos durmam no horário considerado ideal pela família.
Quando a dificuldade para dormir merece atenção?
Nem toda alteração do sono está relacionada aos hábitos.
Despertares frequentes, dificuldade persistente para dormir ou sonolência excessiva podem estar associados a diferentes condições, como:
Dor ou desconforto físico.
Necessidade frequente de urinar durante a noite.
Apneia do sono, especialmente quando existem roncos intensos e pausas respiratórias.
Efeitos de medicamentos.
Ansiedade e alterações do humor.
Doenças neurológicas, incluindo algumas demências.
Problemas respiratórios e outras condições clínicas.
Por isso, quando a alteração do sono é persistente, provoca sofrimento ou interfere nas atividades diárias, é importante buscar avaliação profissional.
Uma mudança súbita do padrão de sono acompanhada de confusão mental, desorientação ou alteração importante do comportamento também merece avaliação médica rápida.
Qual é o papel do cuidador de idosos?

O cuidador desempenha um papel importante na observação da rotina.
Antes de afirmar que a pessoa idosa não dorme, vale registrar durante alguns dias:
A que horas ela costuma deitar e adormecer.
Quantas vezes desperta durante a noite.
A que horas acorda definitivamente.
Se dorme durante o dia e por quanto tempo.
Se apresenta cansaço, irritabilidade ou sonolência.
Se houve mudanças recentes nos medicamentos, na saúde ou na rotina.
Essas informações ajudam a compreender melhor o padrão de sono e podem contribuir para a avaliação dos profissionais de saúde.
O cuidador não deve diagnosticar insônia nem oferecer medicamentos para dormir por iniciativa própria.
Seu papel é observar, registrar, comunicar alterações e contribuir para uma rotina segura e adequada.
Antes de dizer que a pessoa idosa não dorme, observe!
Dormir tarde não significa necessariamente dormir pouco.
Uma pessoa que adormece de madrugada e acorda no final da manhã pode estar dormindo uma quantidade suficiente de horas, embora seja necessário avaliar a qualidade do descanso e os impactos desses horários na vida diária.
Em determinadas situações, ajustes na rotina podem ajudar. Em outras, será necessário investigar possíveis alterações do sono ou condições de saúde.
O mais importante é compreender que cuidar não significa apenas seguir horários, mas observar as necessidades individuais de cada pessoa.
A atenção aos pequenos detalhes faz parte de um cuidado responsável, seguro e qualificado.
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